o perfil
da portadora de
síndrome de rett no brasil
silvana santos1, ana maria rocha fernandes
de sá2, márcia d. dagnesi3, daniela soncine neves4, paula
maria leite maleita4, renato luís paes de andrade4, solange a.
emílio marchioni4, vera lúcia galli4, josé salomão
schwartzman5
(1) Pedagoga, Editora, Presidente da Associação Brasileira
de Síndrome de Rett de São Paulo
(2) Médica Pediatra, Responsável pela Regional Vale do Paraíba
da Associação Brasileira de Síndrome de Rett de São
Paulo
(3) Psicóloga, Responsável pela Regional Vale do Paraíba
da Associação Brasileira de Síndrome de Rett de São
Paulo
(4) Psicólogos
(5) Médico Neuropediatra, Professor do Programa de Pós-graduação
em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Mackenzie
RESUMO:
O PERFIL DA PORTADORA DE SÍNDROME
DE RETT NO BRASIL: Este artigo constitui amplo levantamento de dados das
meninas portadoras de Síndrome de Rett e suas famílias cadastradas
na Associação Brasileira de Síndrome, enfatizando
aspectos relativos ao período pré, peri e pós-natal,
dados e antecedentes familiares, evolução e quadro atual
da condição, tratamento médico-terapêutico
e educacional e dados sócio-econômicos.
UNITERMOS:
Síndrome de Rett
ABSTRACT:
RETT SYNDROME'S PROFILE IN BRAZIL: This
paper reflects a wide data base of the girls with Rett syndrome and their
families entered in the Brazilian Rett Syndrome Association registers,
emphasizing aspects such as pre, peri and postnatal data, familiar antecedents,
evolution and current picture of the condition, medical, therapeutic and
educational intervention and social and economic data.
UNITERMS:
Rett syndrome
Artigo Original
SANTOS, S.; SÁ, A.M.R.F.; DAGNESI, M.D.; NEVES, D.S.; MALETTA,
P.M.; ANDRADE, R.L.P.; MARCHIONI, S.A.E.; GALLI, V.L.; SCHWARTZMAN, J.S.
- O perfil da portadora de síndrome de Rett no Brasil. Temas sobre
Desenvolvimento, v.8, n.45, p.6-12, 1999.
Atualmente, a síndrome de Rett (SR)
já se encontra bem caracterizada clinicamente e documentada em
diversas áreas da Saúde e da Reabilitação
em vasta literatura nacional e internacional (Rett, 1966; Rosemberg e
colaboradores, 1986 e 1987; Trevathan e Moser, 1988; Hagberg, 1989, 1992
e 1993; Percy e colaboradores, 1991; Schwartzman, 1991; Pereira, 1992,
1994 e 1995; Percy, 1992). E, embora a etiologia desta condição
ainda seja desconhecida, o crescente conhecimento da síndrome nesta
última década, em seus diversos aspectos, vem permitindo
suspeitas diagnósticas cada vez mais precoces e, conseqüentemente,
quando o diagnóstico da SR é estabelecido, a possibilidade
de intervenção terapêutica e educacional em idade
ainda pré-escolar permite uma qualidade de vida cada vez melhor
para as meninas assim acometidas.
Todavia, trata-se de condição cujas características
variam amplamente de menina para menina, de família para família.
Com cerca de 300 famílias de todo o território nacional
cadastradas, sendo que 140 foram identificadas apenas no Estado de São
Paulo, nossa experiência na Associação Brasileira
de Síndrome de Rett de São Paulo, desde 1992, ratifica esta
variabilidade na intensidade de sinais e sintomas e na evolução
destas meninas.
Foi no sentido de entender estas diferenças nas manifestações
clínicas e evolução da SR e, assim, de poder traçar
o perfil da portadora de SR em nosso país que projetamos este levantamento
de dados. Para tanto, elaboramos amplo questionário, composto de
sete segmentos principais, a saber:
* Dados da portadora de SR para caracterização
da amostra
* Dados de gestação, parto e período perinatal
* Dados familiares
* Antecedentes familiares
* Evolução e quadro atual
* Atendimento médico-terapêutico e educacional
* Dados sócio-econômicos
O questionário, desenvolvido por
equipe composta de médicos (neuropediatra e pediatra), psicólogos
e pedagoga (sendo que duas destas profissionais também são
mães de portadoras de SR), foi caracterizado por perguntas com
múltipla escolha, de modo que obtivéssemos respostas diretas
e orientadas; desta forma, as famílias (pais e/ou mães)
também se sentiriam mais à vontade para respondê-lo,
pois não haveria necessidade de formular respostas e escrevê-las.
Foram, assim, distribuídos 132 questionários dentre as famílias
cadastradas na Associação Brasileira de Síndrome
de Rett de diferentes regiões do país, que foram acompanhados
por breve carta explicativa em que constavam os objetivos do levantamento
dos dados bem como orientações sobre como preenchê-los.
Dos questionários distribuídos, 59 foram devolvidos corretamente
preenchidos e incluídos neste estudo. Dentre estes questionários,
selecionamos:
- 20 casos que moravam em São Paulo e em cidades próximas,
para avaliação diagnóstica por um mesmo examinador,
que utilizou os critérios estabelecidos pelo CID-10. Este procedimento
fez parte do estudo, no sentido de conhecermos a positividade de diagnósticos
de SR fundamentados em um mesmo grupo de critérios diagnósticos.
- 10 famílias também de São Paulo e cidades próximas,
escolhidas aleatoriamente, para checagem da confiabilidade das respostas.
Estas famílias foram visitadas em seus domicílios por psicólogos
voluntários que repassaram as respostas indicadas nos questionários,
corrigindo algumas delas ou levantando hipótese de "resposta
inconsistente".
CARACTERIZAÇÃO DA
AMOSTRA
Antes de conhecermos os dados que caracterizaram
a presente amostra, foi importante saber que, dos 20 casos submetidos
à avaliação diagnóstica pelo mesmo examinador,
15 (75%) se encaixavam nos critérios do CID-10 para o diagnóstico
de SR, enquanto os cinco (25%) restantes foram excluídos deste
diagnóstico.
Isto nos leva a supor que cerca de 25% dos casos conhecidos de SR refiram-se
a formas atípicas ou retóides da condição
(Pereira, 1995). Neste percentual, provavelmente também estejam
inclusos alguns casos de diagnósticos diferenciais, predominado,
provavelmente, a síndrome de Angelman, observação
que nos permitimos fazer pelo fato de, principalmente nos últimos
dois anos, diversas meninas com suspeita diagnóstica inicial de
SR cujas famílias procuram a associação terem, posteriormente,
diagnóstico final de síndrome de Angelman.
Vale ressaltar ainda que, dos 15 casos de diagnóstico feito pelo
CID-10, 14 eram casos típicos; um dos casos não apresentava
microcefalia, embora o diagnóstico clínico tenha se mostrado
bastante evidente. Ainda destes 15 casos, duas meninas (uma com quatro
anos de idade e outra com seis anos de idade) encontravam-se no estágio
II da condição; as demais 13 pacientes encontravam-se no
estágio III e apresentavam média de idade de 8,6 anos (3,1
a 14 anos).
Por sua vez, das dez famílias visitadas para checagem das respostas,
encontramos 70% de confiabilidade quanto às respostas pertinentes
a Evolução e Quadro Atual; 50% para as respostas relativas
a Antecedentes Familiares e 90% para as respostas dos demais segmentos
do questionário. Estes dados foram importantes para a compreensão
dos achados mais adiante comentados e, sem dúvida, merecem que
novos levantamentos de dados venham a explicá-los.
A maior parte dos questionários respondidos vieram da Grande São
Paulo (45,6%) e Interior (35,1%). Os demais procederam da Capital e Interior
do Rio de Janeiro, Interior da Bahia e Brasília.
Isso posto, nossa amostra foi caracterizada por 59 meninas com média
de idade de 11,1 anos (3,1 a 39,9 anos), com altura média atual
de 1,27m e peso médio de 24,04kg. A média de idade do aparecimento
de sinais da SR foi de 1,2 anos (de 0 a 36 meses), e os sinais iniciais
mais freqüentes foram:
- atraso no desenvolvimento (19,1%)
- perda de aquisições (19,1%)
- estereotipias (17,0%)
- desligamento social (12,8%)
- irritabilidade acentuada (8,5%)
- crises convulsivas (6,4%)
Outros sinais (17%) incluíram bruxismo, "caretas", pneumonia,
desordens do sono, baba, engasgo e estrabismo.
A média de idade destas meninas por ocasião da suspeita
diagnóstica foi de 4,1 anos (de 1,3 a 26,5 anos). A SR foi suspeita
diagnóstica inicial em 49,1% dos casos; nos demais 50,9%, a suspeita
e confirmação do diagnóstico de SR só aconteceu
depois de outros diagnósticos suspeitados e estabelecidos. Os diagnósticos
iniciais mais freqüentes incluíram Autismo Infantil (40%),
Paralisia Cerebral (36,7%), Retardo Mental (13,3%), Encefalopatia não
Progressiva (10%), Hipotonia Muscular Benigna (10%). Em menor freqüência,
ainda foram registrados diagnósticos iniciais de Deficiência
Visual e Auditiva, Doença Degenerativa, Esquizofrenia Infantil,
Epilepsia, Distúrbios de Comportamento, Síndrome de Angelman
e Toxoplasmose.
GESTAÇÃO, PARTO E
PERÍODO PERINATAL
Nossos registros indicaram média
de idade materna de 27,6 anos (de 15 a 41 anos) e média de idade
paterna de 31,8 anos (de 20 a 44 anos).
Dados maternos anteriores à gestação indicaram que
nenhuma mãe apresentou qualquer doença digna de nota, embora
tenha sido registrado tabagismo em 27,1% dos casos; uso não raro
de álcool em 20,3% e uso de droga endovenosa em 1,7%.
Durante a gestação, todavia, 20,3% destas mulheres apresentaram
alguma doença importante (infecção renal, ameaça
de aborto, falta de ar, infecção ginecológica, hipertensão
arterial, hemorragia, hepatite, anemia e edema). Com isso, 28,8% delas
fizeram uso de algum medicamento durante a gestação. Tabagismo
(23,8%) e uso não raro de álcool (25,4%) permaneceram registrados
durante a gestação.
Estas mulheres fizeram parto cesáreo (50,8%) ou parto normal (42,4%).
Em 6,8% dos casos houve registro de uso de fórcipes.
As meninas com SR apresentaram, ao nascimento, peso médio de 3010g
e comprimento médio de 46,5cm. Cianose provável foi registrada
para 15,3% dos casos. Ausência de choro ao nascimento foi referida
em 27,1% dos questionários.
Dez meninas (16,9%) fizeram uso de incubadeira e/ou oxigênio, provavelmente
devido às seguintes intercorrências perinatais relatadas:
pneumonia, icterícia fisiológica, criança PIG, aspiração
de líquido amniótico, líquido meconial, prematuridade,
rubéola, desidratação e febre alta com suspeita de
infecção urinária. Vale mencionar que a média
de idade (32,3 anos) do grupo de mães cujas filhas apresentaram
intercorrências perinatais foi maior que a do grupo como um todo
(27,6 anos).
DADOS FAMILIARES
A prole média das famílias
deste estudo foi de 2,7 filhos. Este número se compôs de
uma prole média de 0,9 filhos homens (33,3%) contra prole média
de 1,8 filhas mulheres (66,7%), diferença que se mostra significativa,
indicando que, pelo menos nesta amostra, trata-se de famílias que
tendem a procriar principalmente filhos do sexo feminino. Importante lembrar
que, na população geral, há como que um equilíbrio
na freqüência de nascimentos de meninos e meninas.
Dos cinco casos relatados de natimortos, três (60%) referiam-se
a bebês do sexo feminino, ratificando a predominância do sexo
feminino nestas famílias. E, se é verdade que fetos masculinos
são abortados se afetados pela SR, a tendência a uma maior
prole feminina se ratifica ainda pelo fato de termos registro de apenas
dois casos de abortos (1,2%).
Em 43% dos casos, a menina com SR foi a primeira filha do casal. Ocupou
a segunda posição na prole em 29%. Os demais casos mostraram-se
homogeneamente distribuídos nas demais posições da
filha com SR na prole (de terceira e sexta). Importante, contudo, observar
que 32 meninas (55%) com SR eram ou filha única ou a última
da prole, dado que nos leva a pensar que a dedicação excessiva
aos cuidados necessários às meninas com SR e/ou o medo de
procriar um novo filho deficiente fazem com que estas famílias
decidam por não ter mais filhos. Isto é especialmente verdade
para os casos de famílias com filhas únicas portadoras de
SR, já que a prole média das famílias deste levantamento
não diferiu muito significativamente da prole média da população
geral em São Paulo (e a maioria das famílias era procedente
de São Paulo).
Problemas de saúde paternos (13,5%) incluíram úlcera
estomacal, sífilis, hepatite, reumatismo infeccioso, problemas
respiratórios, tuberculose e estresse crônico, condições
essas já existentes antes da concepção da menina
com SR.
Entre os pais destas famílias, também foram registrados
uso freqüente de álcool (20,3%), uso não raro de álcool
(54,2%) e uso de drogas endovenosas (3,9%). Das famílias visitadas
pelos psicólogos voluntários, apenas uma referiu que o uso
freqüente de álcool pelo pai ocorreu após o nascimento
da filha com SR. Nos demais casos, estes hábitos eram anteriores
ao nascimento da filha com SR.
Foram registrados problemas de saúde em irmãos/irmãs
das portadoras de SR em 11,9% dos casos (reumatismo, baixa estatura constitucional,
obesidade, hemoglobinopatia C, problemas estomacais, problemas hormonais
e estresse).
ANTECEDENTES FAMILIARES
Casamentos consangüíneos de
avós e bisavós maternos ou paternos foram relatados em dez
casos (17%).
Trinta e nove famílias (66,1%) referiram parentes de até
terceiro grau de ambos os lados paterno e materno afetados por doenças
psiquiátricas. Depressão em parentes próximos foi
referida em 33,9% dos casos. Deficiência mental também foi
dado freqüentemente relatado (23,7% das famílias possuem algum
portador de deficiência mental na família). Outras doenças
neurológicas também foram registradas (19,6%). Estes dados
nos serviram de norteadores para o desenvolvimento de futuro levantamento
de dados mais específico no que concerne a estes antecedentes familiares,
já que os percentuais encontrados se mostraram muito maiores do
que os que se têm com relação à população
geral.
EVOLUÇÃO E QUADRO
ATUAL
Com relação a aspectos motores,
encontramos os seguintes dados:
A menina/mulher com SR:
Senta sem apoio.....67,8%
Senta com apoio ....27,1%
Não senta ...............5,1%
Engatinha(ou) .........20,3%
Não engatinha/
nunca engatinhou.... 79,7%
Fica de pé sem apoio .....15,2%
Fica de pé com apoio .....47,4%
Não fica de pé ..............37,4%
Anda sem apoio ...............15,2%
Anda com apoio ...............28,8%
Parou de andar ................17,0%
Nunca andou ...................38,9%
Preensão presente ...........32,2%
Preensão ausente ................67,8%
Com relação à presença
de preensão, este dado nos pareceu super-estimado na informação
das famílias, já que estas consideraram o simples encostar
no objeto como "preensão", o que foi observado pelos
psicólogos voluntários.
Levantamento multicêntrico de dados realizado na Inglaterra, englobando
portadoras de SR residentes nos Estados Unidos da América, Canadá
e Reino Unido (Lewis e Wilson, 1999) registrou percentual de 44% destas
pacientes que andam sem qualquer apoio, enfatizando que este valor não
mostra alterações nas diversas faixas etárias documentadas.
Trata-se de percentual bastante maior do que o que encontramos dentre
as nossas portadoras de SR (15,2%). Esta diferença parece ter explicação
respaldada tão somente nas diferenças de provisão
de serviços públicos sanitários e educacionais entre
os dois países.
Praticamente todas as meninas apresentaram movimentos estereotipados das
mãos (98,4%), sendo que em quatro casos (6,8%) estas estereotipias
estavam associadas com piscar de olhos. As estereotipias manuais se distribuíram
da seguinte forma: estereotipias manuais de linha média (59,3%);
bater mãos na boca/dentes (17%); bater mãos na cabeça
(11,9%), bater mãos no peito (3,9%) e movimento de dedos (3,9%).
Dados relativos a aspectos da comunicação foram assim registrados:
Vocalizações............
61,0%
Balbucios................. 27,1%
Fala:
- até 5 palavras ...........8,5%
- nunca falaram ..........52,5%
- pararam de falar .......47,5%
A perda da fala se deu em média
aos 2,1 anos de idade.
Cerca de 76% das meninas utilizavam outras formas de comunicação
significativa: olhar, choro, sorriso, gritos, gargalhadas, resmungos,
movimentos corporais, expressões faciais, mãos, vocalizações
significativas e mordidas. Foi curioso, no entanto, constatarmos que 23,7%
das famílias relataram ausência de qualquer forma de comunicação.
Apenas 1,7% das meninas come sem auxílio; todas as demais precisavam
ser alimentadas. Os dados levantados indicaram que 88,2% delas comem todo
tipo de alimento; as outras (11,8%) se alimentam apenas de alimentos pastosos.
Com relação à quantidade de alimentos ingeridos durante
as refeições, 62,7% dos questionários referiram quantidade
normal; 22%, quantidade acima do normal e 13,5% indicaram pequena quantidade
de alimentos durante as refeições. Registramos um único
caso de portadora de SR com uso de gastrostomia.
Para a alimentação, predominou o uso isolado da colher (64,4%),
seguida de uso isolado de mamadeira (15,6%) e de uso combinado de colher
e mamadeira (15,6%). Apenas em um caso foi referido o uso de garfo. Por
sua vez, para a ingestão de líquidos, o copo comum é
utilizado com freqüência (42,4%), seguido da mamadeira (13,5%).
Copo com bico e colher foram relatados como meio isolado para ingestão
de líquidos em um caso cada um. A associação de mamadeira,
copo com bico e colher foi relatada em 38,9% dos casos.
Quanto aos aspectos clínicos gastrointestinais, a constipação
intestinal foi bastante freqüente (81%). Também foram registrados
engasgos (67,8%), vômitos (44%) e refluxo (35,6%). Perda de peso
foi registrada para 45,8% das meninas, enquanto ganho de peso o foi para
28,8%.
De fato, a literatura aponta que cerca de 85% das portadoras de SR sofrem
de constipação intestinal crônica, provavelmente devida
a uma série de fatores que incluem: falta de atividade física,
tono muscular pobre, dieta pobre em fibras, uso de medicamentos (principalmente
os anticonvulsivantes), ingestão inadequada de líquidos
e escoliose (Hunter, 1999).
No que concerne aos aspectos respiratórios, 61% das meninas apresentaram
apnéia e 55,9%, hiperventilação. Cerca de 38% dos
casos registrados apresentaram um ou mais episódios de pneumonia
em alguma fase da vida. Secreção foi registrada para 47,5%
dos casos.
Os questionários apontaram uma freqüência de 72,9% de
crises epilépticas, dos quais 25,4% parecem não convulsionar
mais. O uso de drogas anticonvulsivantes foi assim registrado:
Drogas utilizadas isoladamente (44,2%):
- Ácido valpróico .......18,6%
- Fenobarbital ..........11,6%
- Carbamazepina .......9,3%
- Lamotrigina ............2,3%
Drogas utilizadas em associação (55,8%):
- Carbamazepina ......25,6%
- Ácido valpróico .......23,2%
- Fenobarbital ...........11,6%
- Clonazepan............. 7,0%
- Clobazan................. 7,0%
- Outros ....................7,0%
- Lamotrigina.............. 2,3%
Irritabilidade acentuada (86,4%), bruxismo
(84,7%) e distúrbios de sono (76%) também foram achados
freqüentes nesta amostra.
Escoliose também se mostrou dado freqüente (61,0%), sendo
que a média de idade de aparecimento foi de 7,2 anos (3 a 13 anos).
O aparecimento de escoliose na faixa etária entre 3 e 5 anos foi
relato de 34,4% dos casos, e entre 5,1 e 7 anos, de 21,8% dos casos. Em
6,3% das meninas, a escoliose apareceu depois dos 13 anos de idade.
ATENDIMENTO MÉDICO-TERAPÊUTICO
E
EDUCACIONAL
Atendimento médico neurológico
sistemático foi referido em 76,2% dos casos. Por outro lado, apenas
50,8% das portadoras de SR deste estudo recebiam acompanhamento pediátrico
ou clínico com periodicidade.
Apesar da alta freqüência de escoliose registrada, acompanhamento
por médico ortopedista foi referido em 50,8% dos questionários
analisados; igualmente apesar da alta incidência de constipação
intestinal, vômito, refluxo e perda de peso, apenas 10% das meninas
visitavam regularmente o médico gastroenterologista. Por fim, embora
tenhamos registrado que 20% das meninas já menstruavam, o atendimento
ginecológico foi referido em 13% dos casos.
Cerca de 7% das portadoras de SR aqui estudadas não recebia qualquer
tipo de tratamento médico, e, a despeito das freqüências
de distúrbios respiratórios acima referidas, nenhuma menina
era atendida por médico pneumologista em bases regulares.
A Odontologia (67,8%) e a Fisioterapia (62,7%) foram serviços terapêuticos
freqüentemente relatados. Menos de 30% das meninas atendiam programas
terapêuticos de Fonoaudiologia e/ou Terapia Ocupacional. Acompanhamento
com nutricionista foi relatado em 13,5% dos casos. Perto de 30% das meninas
estavam em programas de terapias ditas alternativas (equoterapia, hidroterapia,
aromaterapia, acupuntura, entre outras). Novamente, cerca de 7% dos casos
não recebia qualquer acompanhamento terapêutico.
Referindo novamente os estudos de Lewis e Wilson (1999), nossos dados
parecem promissores, se considerarmos as diferenças culturais,
sociais e econômicas entre o Brasil e os países que integraram
aquele estudo (Estados Unidos, Canadá e Reino Unido). Assim, estas
autoras referem que 43% das portadoras de SR daquele estudo recebiam Fisioterapia,
e 26% recebiam orientação fisioterapêutica esporádica.
Terapia Ocupacional foi relatada em 20% dos casos do Canadá e Estados
Unidos, países onde esta terapia faz parte do programa curricular
educacional, e em apenas 10% dos casos do Reino Unido. Atendimento fonoaudiológico
em base semanal foi registrado em 36% dos casos levantados pelas referidas
autoras. E, curioso, 31% das portadoras de SR não recebiam qualquer
tipo de terapia.
Nossos dados só diferem mais concretamente dos de Lewis e Wilson
no que se refere à Musicoterapia, que era recebida por 30% dos
casos. Em nosso estudo, não registramos qualquer caso de atendimento
regular em Musicoterapia, apesar da importância desta modalidade
já ter sido referida há muitos anos pelo próprio
Dr. Andreas Rett.
Deparamo-nos, aqui, entretanto, com um contraponto digno de investigação
ulterior: se, por um lado, as meninas inglesas com SR deambulam mais do
que as brasileiras, por outro lado, as brasileiras recebem intervenção
fisioterapêutica mais do que as inglesas. Estudo mais amplo desta
comparação fica sugerido.
Apenas 27% das portadoras de SR estudadas recebiam aporte educacional,
a maioria delas em escolas de educação especial. Apenas
uma menina de três anos freqüentava pré-escola regular.
Todas as portadoras de SR que fizeram parte do banco de dados de Lewis
e Wilson freqüentavam algum tipo de ambiente escolar (escola regular
inclusiva, escola especial ou escola-residência), dadas as diretrizes
e políticas de Educação pública naqueles países,
onde a escolarização é obrigatória e acessível
para todas as crianças e adolescentes.
Damo-nos licença, neste momento, para deturpar um pouco o conceito
de escola inclusiva que vimos defendendo. Acreditamos que, num primeiro
momento, antes de uma ESCOLA PARA TODOS, ou seja, educação
de qualidade para todos, precisamos mesmo é de ESCOLAS PARA TODOS.
DADOS SÓCIO-ECONÔMICOS
Os questionários englobados neste
levantamento de dados foram provenientes de famílias com renda
familiar predominantemente baixa (50% delas recebiam até R$ 500,00
por mês; outros 20% recebiam até R$ 1.000,00 por mês).
Apenas 15% das famílias tinha renda familiar mensal superior a
R$ 1.500,00.
Dentre as necessidades sócio-culturais para o atendimento à
pessoa com SR, as famílias arrolaram as seguintes:
- Maior conhecimento sobre a SR por parte
de médicos e terapeutas (65%)
- Maior conhecimento sobre a evolução da SR (60%)
- Fraldas descartáveis (57%)
- Transporte para que a portadora de SR tivesse melhor acesso aos atendimentos
médicos e terapêuticos (53%)
- Escolas especiais que recebessem portadoras de SR (51%)
- Atendimento médico-terapêutico mais regionalizado (39%)
- Emprego para pais e outros familiares desempregados (34%)
- Medicamentos gratuitos (27%)
- Carrinhos/cadeiras de rodas gratuitos (22%)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este levantamento de dados permitiu que
traçássemos o perfil preliminar da portadora de SR no Brasil.
Nossa intenção primeira foi tão somente ter acesso
aos dados ora apresentados e, a partir deles, poder: (a) sistematizar
a coleta e atualização destes dados; ((b) traçar
paralelo estatístico com a população geral; (c) nortear
pesquisas mais específicas e mais amplas sobre determinados aspectos
do estudo; (d) desenvolver planos de ação para acesso das
portadoras de SR a uma qualidade de vida de fato melhor; (e) nortear o
entendimento da SR para profissionais da saúde e da educação.
Muitos dos dados registrados só vieram confirmar dados da literatura
sobre a SR. Outros achados, porém, merecem estudo epidemiológico
mais aprofundado, como é o caso de estas famílias terem
proles predominantemente femininas e a alta freqüência de distúrbios
psiquiátricos e deficiência mental em antecedentes familiares
destas meninas.
A Associação Brasileira de Síndrome de Rett congrega,
como ficou registrado neste levantamento de dados, predominantemente famílias
de nível sócio-econômico-cultural menos privilegiado.
Neste sentido, os dados aqui relatados nos fornecem uma série de
pontos de partida para melhor orientar as famílias que nos procuram,
para melhor responder às suas dúvidas e para melhor incentivá-las
na busca de seus direitos por atendimento médico e educacional
para as suas filhas. |