APRENDENDO
ATRAVÉS DA MÚSICA
Carol Affholder
Musicoterapeuta
(EUA)
INFORMAÇÕES PESSOAIS E INTRODUÇÃO
Trabalho
como Musicoterapeuta há 14 anos em escolas públicas. Os
primeiros dez anos foram passados em uma escola para crianças com
necessidades especiais, com idade entre 3-21 anos. Nos últimos
quatro anos, andei por escolas diferentes, trabalhando com uma grande
variedade de alunos.
Nestes 14 anos tive o privilégio de trabalhar com duas meninas
com Síndrome de Rett. As garotas eram muito diferentes uma da outra,
mas ambas demonstravam bastante progresso ao aprender através da
música.
Quero aqui, resumidamente, falar sobre Amanda, porque tive contato com
ela por dois anos. Durante esse tempo ela vivia dentro de casa, porque
tinha dificuldades respiratórias; mas agora ela pode freqüentar
uma escola em apenas um turno, acompanhada por sua enfermeira. Amanda
tem 10 anos.
Enquanto trabalhávamos, ela começou a nos mostrar que entendia
muitas coisas, bem mais do que as pessoas diziam que ela entendia. Sob
circunstância ideais, em seus dias de alerta, ela demonstrava o
reconhecimento de muitas habilidades básicas tais como cartas,
números e cores. O seu nível de demonstração
das habilidades foi mais ou menos equivalente ao de um aluno da pré-escola
ou de jardim de infância.
Minha apresentação, contudo, se concentrará em Lily,
com quem trabalhei por mais de sete anos. Minha explanação
de hoje os levará a entender a sua jornada de aprendizado através
da música, e espero ser capaz de compartilhar algumas idéias
práticas que vocês também poderão utilizar.
O
COMEÇO...
Os pais de
Lily vieram à minha escola checar as instalações
antes de se mudarem para o local. Seu pai conseguiu um emprego a 35-40
minutos da escola; mas eles queriam comprar uma casa no local onde fosse
mais fácil para Lily ir para escola.
Uma vez decidido que Lily iria freqüentar a escola, a qual naquela
época era totalmente voltada para crianças com necessidades
especiais, os pais imediatamente solicitaram serviços de Musicoterapia
para ela. Porque eles tiveram acesso a pesquisas que apoiam a efetividade
do uso de música para garotas com Rett, e documentação
de como poderia ser usada, não havia dúvidas que lhe seriam
prestados os serviços requisitados. Nessa época, ainda não
tinha trabalhado individualmente com nenhum aluno em idade pré-escolar.
Geralmente esses alunos vinham para aulas de música em grupos,
num estilo mais tradicional de aprendizado. Felizmente a administração
apoiava a Musicoterapia e era muito aberta a novas idéias. O único
uso anterior de música com Lily, antes de se mudar para minha escola,
foi através de uma fonoaudióloga que tentou usar a música
para muitas coisas. O pai de Lily informou que era óbvio que ela
não gostava da voz da fonoaudióloga, porque ficava muito
chateada quando a mulher começava a cantar.
Os funcionários da escola foram instruídos de que não
havia testes conhecidos para garotas Rett, capazes de determinar sua habilidade
cognitiva; entretanto, tínhamos que tratar a Lily como se ela realmente
entendesse tudo.
No que diz respeito à Musicoterapia, o acordo foi o seguinte: ficou
comprovado que a música causava um grande benefício ao ambiente
de aprendizado bem como às áreas próximas. Os pais
concordaram que fariam uso de vídeos musicais ou filmes que tivessem
bastante música quando Lily não conseguisse dormir ou quando
parecesse angustiada.
AS
PRIMEIRAS ÁREAS DE OBSERVAÇÃO
A primeira
área de habilidade que escolhemos foi a do contato visual. Lily
tinha enorme dificuldade para se concentrar em um objeto ou pessoa por
mais de um ou dois segundos. Rapidamente constatei que Lily ficava me
fixando constantemente quando eu cantava para ela. Se eu falasse ou desse
instruções usando uma voz comum, ela se distraía;
mas, no momento em que eu cantava, seus olhos voltavam a me fixar. Nosso
trabalho, então, foi aumentar a duração desses contatos
visuais, usando canções para crianças e, depois,
mudar para músicas mais complicadas. Músicas que tinham
interação de movimentos ou elementos antecipatórios;
músicas cantadas até o final, quando o elemento surpresa
foi muito efetivo. Lily sempre adorou surpresas.
Durante esse período, também utilizamos a música
como relaxante quando Lily estava chateada. Ela escutava uma grande variedade
de músicas e, a julgar pela sua expressão facial e linguagem
corporal, suas músicas preferidas foram gravadas em uma só
fita. A fita era utilizada para ajudá-la nas aulas mais agitadas
ou se ela ficasse aborrecida em algum outro local. Às vezes ela
ficava inquieta em aulas de Educação Física, e a
fita era usada para acalmá-la.
Os pais começaram a utilizar em casa um sistema Sim/Não
com Lily. Eles leram sobre uma outra garota Rett que usava o piscar de
olhos para dizer Sim, e olhar distante para dizer Não. Eles me
pediram para usar esses códigos em minhas sessões de Musicoterapia.
Eu utilizei várias formas para tentar esse novo conceito. Músicas
e instrumentos preferidos foram mostrados a Lily e ela ficou muito entusiasmada.
Eu dava pausas momentâneas nesta atividade, e quando ela olhava
para mim eu piscava para ela, depois imediatamente reiniciava a atividade.
Depois de muitas demonstrações do conceito de Começar/Parar
associado ao piscar de olhos, comecei a dizer a Lily: "se você
quiser mais música, diga sim com um piscar de olhos". No começo
eu até ajudei ela a piscar depois da frase, dando-lhe um pequeno
susto, sabendo que ela gosta do elemento surpresa. Não levou muito
tempo até que ela entendesse que a idéia de piscar significava
Sim ou Mais. Nas semanas subseqüentes, forçamos mais as piscadas
de olhos, com movimentos mais fortes, para evitar mal entendidos ou piscadas
acidentais como resposta. Com a garantia do Sim/Piscada como resposta,
ficou decidido que esse sistema seria usado na sala de aula e em outros
locais. Muitas vezes, durante os últimos sete anos, sistemas e
técnicas para aprendizado foram estabelecidos na Musicoterapia
e depois trazidos para dentro da sala de aula.
CINCO
ANOS DE IDADE
O seguinte
procedimento para Lily foi mais voltado para conceitos acadêmicos,
bem como para o comportamento em geral. Havia vezes que era difícil
para Lily ficar acordada, especialmente durante os meses de inverno. Geralmente
a Musicoterapia servia meramente para ajudar a estimulá-la. No
entanto, ela era capaz de demonstrar compreensão cognitiva de conceitos
pré-acadêmicos em seus dias de alerta.
Começamos a trabalhar com cores, cartas, reconhecimento de números,
bem como com a identificação de seu nome por escrito. Eu
fiz músicas para ajudá-la a reconhecer seu nome e depois
para identificar as letras separadamente e colocá-las juntas. "Você
pode encontrar o L maiúsculo?". No começo eu lhe mostrava
a letra que eu queria que ela identificasse, até que ela não
precisasse mais de modelos. Através de todos esses exemplos, eram
dadas duas alternativas para escolha. Ela olhava para um, depois olhava
para mim.
Também foi nesse período que começamos a trabalhar
em respostas com Não, fazendo com que ela olhasse distante quando
não queria alguma coisa. Foi bem natural para ela, porque foi fácil
moldar a ação comunicativa Não.
IMPORTANTES
INFORMAÇÕES APRENDIDAS
Uma vez que
eu não era um professor de sala de aula, com formação
acadêmica, tive que aprender muitas coisas sozinha. Estratégias
para ensinar conceitos acadêmicos e apresentação seqüencial
de habilidades. Estando em uma escola para crianças com necessidades
especiais, era muito fácil trocar informações com
outros membros do grupo, bem como aprender com eles. Tenho tido muita
sorte em minha carreira por poder trabalhar com muitos profissionais fantásticos,
de professores a terapeutas que sempre estão em contato com os
alunos.
Mas o melhor que aprendi veio dos próprios alunos. No começo
do trabalho com Lily, houve muitos elementos importantes que aprendi.
Primeiro, especialmente com garotas Rett, empatia é extremamente
importante. Não só com Lily, mas também com Amanda,
ficou bem claro que para haver comunicação deve haver uma
forte empatia. Se as garotas sentirem que não há respeito,
elas não demonstrarão comunicação efetiva
ou até mesmo habilidade cognitiva. E isto é verdadeiro em
muitos casos: vi muita gente que não lhe respeitava, e, dessa maneira,
Lily não permitia que soubessem o quanto ela sabia.
Nesse período era seguro dizer que havia uma ligação
entre música e aprendizado para Lily e isto tornou-se uma ferramenta
para checar compreensão e demonstração de habilidades.
Lily começou a freqüentar sua escola em turno de meio período,
na sua primeira série. Ao final do ano, ela já estava assistindo
aulas nos dois turnos.
SEIS
ANOS DE IDADE
Era muito
importante que Lily trabalhasse as mesmas atividades realizadas por seus
colegas. A maior parte do seu dia era tomada para aprender da mesma maneira
que os outros alunos. Testes foram modificados de formas que ela pudesse
ler as questões e responder com o olhar. Nesse ponto pudemos estabelecer
um formato consistente para escrita usando a música antes, depois
mudando o ritmo que era mais acessível para os adultos.
Além do foco no aprendizado acadêmico, também comecei
a trabalhar nela maneiras de controlar sua voz. Ela teve rompantes espontâneos,
geralmente em horas não apropriadas. Ela também tinha um
repertório limitado de sons que podia produzir e nós queríamos
investigar se havia linguagem significativa que pudéssemos casar
com esses sons.
Informalmente, também comecei a trabalhar a área de controle
de braço e mão. Ela usava e ainda usa talas no braço
para evitar que sua mão fique constantemente em sua face e boca.
Enquanto alguns instrumentos e músicas tocadas ajudaram Lily a
ganhar uma quantidade mínima de controle sobre suas mãos,
não houve efeitos a longo prazo. Praticando usar suas mãos
em instrumentos, mesmo para pequenos momentos de controle, não
a ajudou a manter o controle quando os instrumentos paravam. Isto também
era verdadeiro para o controle de voz. Lily era capaz de produzir três
ou quatro tipos de sons vocálicos diferentes, mesmo sob comando
em seus dias de alerta.
Lily e eu trabalhamos com controle de voz até que ela demonstrasse
interesse em parar. No entanto, ela não tem mais rompantes vocais.
Se a prática através da música surtiu ou não
efeito, é apenas especulação.
NOVE
ANOS DE IDADE
O IEP para
Musicoterapia ainda continua a focalizar conceitos acadêmicos primários.
Foi dada mais ênfase à Matemática. Foi incluído
algum tempo para ortografia, porque não havia tempo suficiente
em sala de aula para praticar todas as suas habilidades. Controle de voz
e braço ainda fazia parte da rotina.
A próxima área de interesse por parte dos pais veio como
um pedido para tentar ajudar Lily a ser mais independente na leitura.
Ela podia escutar estórias e responder questionários corretamente,
mas era difícil perceber o que ela podia ler sozinha.
O primeiro passo foi ligar alguns tipos de música com a duração
das aulas. Música instrumental foi uma chave nos dias em que ela
não estava tão energizada. Música calma e relaxante
era efetiva quando ela tinha dificuldades de concentração
ou se havia muita distração em sala de aula. Nesse ponto,
eu passava muito tempo com meus colegas professores aprendendo melhores
práticas de leitura e tentando descobrir maneiras criativas de
apresentações para Lily.
LEITURA
ATRAVÉS DE MOVIMENTO
Muitas abordagens
de apresentação foram tentadas com Lily. Ultimamente estava
determinado que ela não podia simplesmente classificar as formas
das figuras nem simplesmente escanear a página com seus olhos.
Foi neste ponto que uma revelação me veio enquanto tomava
banho numa manhã. Se Lily podia assistir filmes muito bem, o que
fazia seus olhos ficarem tão fixos? O fato de que estava em movimento
contínuo! Era um pensamento bastante óbvio, mas eu nunca
havia tentado mover as palavras em frente dela.
Quando vi Lily outra vez, eu tentei a idéia no computador, usando
um protetor de tela chamado "marquee". As palavras simplesmente
deslizam sobre a tela em qualquer tamanho ou velocidade que você
desejar. Eu digitei: "Oi Lily!". Depois digitei algumas frases
que eram verdadeiras e falsas. Ela sorriu e respondeu minhas perguntas.
Foi uma grande revelação.
Já dividi esta estória com muitas pessoas nos Estados Unidos
através de e-mails. Outras garotas também foram bem sucedidas
ao usar a idéia de mover o que estava escrito. Agora que o potencial
foi descoberto, as opções para o futuro e para a tecnologia
podem ser intermináveis.
DEZ
ANOS DE IDADE
As mais recentes
áreas de interesse para Lily, de acordo com o pedido dos pais,
nos leva à área das emoções. Eles queriam
explorar sua compreensão de emoções básicas,
especialmente porque ela está se aproximando da pré-adolescência.
Um projeto muito longo que desenvolvemos juntos foi a composição
da letra para uma música que refletisse como Lily se sentia sobre
coisas em sua vida. Passamos muitas horas pensando e analisando frases
para as quais ela tinha fortes respostas. Havia horas em que eu pensava
que ela ia pular de sua cadeira de tanta ansiedade.
Eu peguei os pensamentos mais fortes e os coloquei em forma de poema.
Depois que ela escolhesse o tipo de música e os instrumentos que
deveriam ser tocados. Vou lhes mostrar a letra de "Lily's song"
("A música de Lily", por Lily Merrick e Carol Affholder):
Venha, puxe
uma cadeira e sente-se por um momento
Porque eu quero dividir alguns pensamentos com você
Há uma parte de mim que gostaria de dividir com você
Dê-me apenas alguns momentos para dizer...
Sou como qualquer outra pessoa
Posso não parecer igual a você
Posso fazer algumas coisas bem diferentes
Mas por dentro eu penso e sinto como outras garotas da minha idade.
Sou parte de uma família, com uma mãe, um pai e irmão
também
Meus avós são especiais para mim e da mesma forma que os
seus
Minha lista de coisas favoritas para fazer, gosto de sair com os amigos,
fazer compras, comer e ir ao cinema. Você não quer vir comigo?
Eu gosto quando você fala comigo e me inclui em seu dia
Veja em meus olhos e eu lhe direi a verdade
Por favor divida suas brincadeiras comigo, gosto de sorrir com você
As pessoas dizem que tenho um sorriso bonito e eu gosto de ver o seu sorriso
também
Algumas vezes pode ser difícil dizer que entendo de verdade o que
se passa ao meu redor, mas eu lhe escuto mesmo assim.
Então, por favor lembre-se disso meu amigo, as coisas nem sempre
são como você vê
São sentimentos lá no fundo que são todos parte de
mim.
Encerrando,
eu quero dizer que continuamos a buscar novas maneiras de usar a música
para ajudar no programa educacional da Lily. Tentando encontrar pontes
em informações de aprendizado, buscando maneiras de dar
oportunidades para envolvimento com seus colegas ou certificando-me de
que Lily tenha uma saída para compartilhar seus sentimentos e pensamentos
em um ambiente saudável para ela. A Mussicoterapia sempre terá
um importante papel em sua vida.
Muito obrigada por terem me dado a oportunidade de contar a estória
de Lily para vocês. Sinceramente espero que tenha lhes dado idéias
que potencialmente também possam ser trabalhadas com suas garotas.
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